"Seja bem-vindo"

...tentamos escrever bem para escrever sempre.

31.3.10

...pés cansados...


Mas não havia jeito, não havia escapatória ! Vivia num mundo de humanos covardes e pequenos. Justo ele que sempre fora tão grande, ansiara voar...sentia-se como um avestruz, ou pior, um frango: Tinha asas, mas, mal saia do chão. E se fosse assim pra sempre? E se sempre estivera alí, à beira do morro, mas nunca chegaria a meros metros do chão. Logo ele que sonhava em ver o mundo do alto, tocar as estrelas...E se fosse um animal terrestre fadado a tortura de ter asas inúteis? Seria pior ainda.
Não queria ser escravo de ninguém. Porque era assim que poderia se definir nos últimos tempos. Talvez até nos últimos anos, um escravo.Sem sonhos, sem vontades, sem nada! Um ser vazio e desconhecido, mero fantoche...Mas não por muito tempo!

Não desperdiçaria sua vida em um labirinto de ratos.
E achou a sua solução brilhante, na verdade não achou, apenas tirou das prateleiras de sua mente.E não, não precisava que o entendessem, e mesmo com tanta convicção experimentou a dúvida, a maldita dúvida.
Vagou pela casa, e alí sozinho na semi-escuridão com passos de fantasma antecipando seus dias no além, sozinho mais uma vez, mergulhado em seu mundo.Já era quase alvorada quando entrou na cozinha e puxara de dentro da gaveta tirando de lá a reluzente lâmina que terminaria com todos os seus problemas.
Não conseguia mais viver como escravo, presso ao chicote do capataz e às ordens do coronel. Tinha honra e caráter demais para isso e jamais aceitaria tanta falta de respeito à sua natureza. A morte selaria o seu destino antes que o tornassem em uma piada de baixo calão.
Então, a lâmina tocou sua pele. O frio metálico e os dentes da faca espetando a sua superficie.Aquela era sua dúvida, não temia a morte, não temia o dito inferno, não temia a dor que causaria nos outros...temia ÚNICA e exclusivamente sentir dor, a dor da serra abrindo-lhe os pulsos, abrindo lhe a carne.Sentiu medo de sentir dor, sentiu o ar faltar, seus pulmões esvaziar. Seu pânico era tanto que a sua coragem caiu por terra e ele foi pra lá, chorar.
Não sabia se era porque resistiu ou desistiu. Não sabia se chorou por não ter a menor idéia do que faria além de morrer. Não sabia se chorou porque demonstrava mais uma vez ser aquele mediocre que não queria ser.
Desistiu, como sempre.